NYTimes: Crise no preço do petróleo alimenta revolta na Rússia

10/02/2016

Artigo produzido por New York Times International Weekly em parceria com a Folha de S.Paulo.

KRASNODAR, Rússia — O ano passado foi ruim para Sergei e Victoria Titov, dois professores de música. O salário que recebem do governo foi reduzido em um terço, e a inflação galopante colocou alguns mantimentos básicos, como a berinjela e o pepino, fora do seu alcance.

Então, no dia 1º de janeiro, veio a repentina decisão do governo regional sediado em Krasnodar, capital do coração agrícola do sul da Rússia, de reduzir os subsídios ao transporte para os idosos, obrigando o casal a limitar também seus passeios de bonde.

Temendo pelo pior em meio aos problemas econômicos da Rússia, Sergei Titov aderiu, com centenas de outros idosos, a uma manifestação não autorizada sob a estátua de bronze de um cavaleiro cossaco, numa praça local. “Devolvam nossos benefícios!”, gritavam eles.

Não estavam sozinhos, nem em Krasnodar nem em toda esta vasta nação, onde greves espontâneas e protestos ilegais ocorrem com frequência cada vez maior, envolvendo caminhoneiros, professores, operários e russos de todos os tipos, todos sofrendo com os agudos cortes de gastos públicos causados pela expressiva redução na arrecadação com gás e petróleo.

O desmoronamento dos preços do petróleo está reordenando as relações econômicas em todo o mundo, mas a mudança é particularmente difícil para a Rússia, cujo Orçamento federal depende em 50% das exportações energéticas.

Em dezembro, o presidente Vladimir Putin disse à nação que o pior da recessão —a economia encolheu 3,9% e a inflação atingiu 12,9% em 2015— já passou, e que o crescimento, ainda que modesto, deve voltar em 2016. Ele ultimamente tenta promover a queda no preço do petróleo como uma “oportunidade” que permitirá à Rússia diversificar sua economia.

Em janeiro, o petróleo caiu a menos de US$ 30 por barril, e o rublo atingiu o menor valor da sua história.

Como o Orçamento federal aprovado em dezembro se baseava em um barril de petróleo a US$ 50, o governo anunciou que o país deve ter um déficit comercial de US$ 40 bilhões, e os ministérios receberam ordens de cortar 10% dos seus gastos.

Em Krasnodar, cidade com 800 mil habitantes, Titov, 64, se prepara para tempos difíceis. “Não sei o que vão cortar, mas sei que vai nos afetar.”

O preço dos alimentos subiu 20% no ano passado, segundo as estatísticas, mas com frequência os russos se queixam de que a sua conta do supermercado aumentou um terço ou mais, em grande parte devido às sanções que Moscou impôs às importações de alimentos do Ocidente, em retaliações por sanções ocidentais por causa da Ucrânia.

Numa tradição que remonta aos tempos soviéticos, muitas empresas privadas, e também as estatais, tendem a reduzir jornadas ou atrasar salários em vez de demitir trabalhadores, na esperança de reduzir o risco de descontentamento social.

Recentemente, em Moscou, cerca de 15 funcionários da rede de pizzarias americana Sbarro se postaram sob frio brutal diante de uma das unidades com cartazes que diziam “Deem o nosso dinheiro”. Vários relataram que estavam havia três meses sem receber salários.

Embora mais pobre, a Rússia continua sendo um petro-Estado, razão pela qual há bolsões de abundância. A Rolls-Royce anunciou um salto de 5% nas suas vendas no país no ano passado. Outros parecem alheios à crise. A prefeitura de Moscou abriu concorrência para contratar fornecedores de banquetes, incluindo o foie gras e o presunto de Parma como itens obrigatórios nos cardápios.

As redes sociais entraram em ebulição. Um russo citou uma famosa frase do poeta Vladimir Maiakovski, na época da Revolução de 1917: “Coma abacaxi, mastigue o seu faisão!”. Ele deixou subentendido o segundo verso: “Seu último dia está chegando, burguês!”.

Titov disse ter a sensação de que os problemas econômicos contribuem para um sentimento corrosivo de país à deriva. “A Rússia sempre conviveu com uma espécie de ideia nacional, um objetivo: estamos construindo o socialismo e o comunismo”, disse ele. “Mas agora não. Só seguimos o fluxo, e não está claro em qual direção.”

O envolvimento russo nas guerras da Ucrânia e da Síria causa ansiedade. Alguns analistas acusam o Kremlin de buscar aventuras no exterior para distrair as pessoas dos problemas econômicos domésticos. “As pessoas estão mais alarmadas e mais tensas, porque atualmente estamos falando de suas vidas”, disse Valery Fedorov, do Centro de Pesquisas da Opinião Pública da Rússia, órgão estatal.

Muitos analistas anteveem que os russos farão o que sempre fazem em tempos difíceis —se encolher e esperar passar. Outros consideram que os cidadãos deste país já se acostumaram a um padrão de vida melhor e vão protestar se o perderem.

Até agora, os governos locais vem reagindo com moderação aos protestos. O governador da região de Krasnodar restaurou os passes de transportes para idosos de baixa renda.

Titov, no entanto, se mantém crítico. “O povo conseguiu o que queria, um czar”, disse, referindo-se a Putin.

Colaboraram Alexandra Odynova e Ivan Nechepurenko

Fonte: Folha de São Paulo

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