Tecnologia aplicada para segurança

11/02/2016

Serviços de rastreamento, monitoramento e histórico de bens pode não apenas reduzir as incidências de roubos ou desvios de cargas como também oferecer um diferencial no serviço ao cliente e proteger os ativos das companhias.

Monitorar, medir ou rastrear bens móveis por meio de dados aferidos no próprio equipamento, que envia as informações a uma central de dados, já faz parte da engenharia de transportes de cargas há muito tempo, ao ponto de ser, hoje em dia, impensável trabalhar sem esse tipo de serviço. O nome que se dá a essa tecnologia é a telemetria, ou seja: a medição de desempenho à distância.

Com o decorrer dos anos, no entanto, pudemos acompanhar mudanças importantes tanto na qualidade do processamento desses dados quanto na precisão dos equipamentos de envio e recebimento dos dados, sejam por meio de sites web ou aplicativos para dispositivos móveis. Fora do mercado de cargas, a Telemetria tem diversas aplicações imprescindíveis, como, por exemplo na Fórmula 1, em que as máquinas industriais podem medir produtividade, frotas de veículos, perfil de dirigibilidade dos motoristas, manutenção preventiva, gerenciamento do consumo de combustível, entre outros.

Segundo Bruno dos Santos, gerente de vendas e e-marketing da MiX Telematics, hoje, o mercado de prestadores de serviços de cargas já dispõe de soluções para localização do bem, monitoramento de informações como tempo de uso, nível de tanque, temperatura do motor, RPM, velocidade, local de estacionamento, pontos visitados, local de ancoragem, etc. “Com a telemetria, é possível estabelecer eletronicamente um histórico do equipamento”, explica Bruno. O acompanhamento do histórico é importante tanto para equipamentos que permanecem muitos anos em operação pela mesma empresa quanto aqueles utilizados para locação ou vendidos a novos operadores, ou seja: se, no passado, esse bem móvel tiver sido utilizado de maneira incorreta ou prejudicial à sua conservação, o novo operador terá condições de acessar essas informações e tomar decisões gerenciais preventivas.

A implantação desse tipo de serviço já está tão consolidada no mercado que, muitas vezes, a própria seguradora exige o rastreamento para criação da apólice, especialmente quando se trata de cargas de alto valor agregado. Por meio do acompanhamento do trajeto das cargas, é possível não apenas reduzir as incidências de roubos ou desvios de cargas como também oferecer um diferencial no serviço ao cliente, que pode acessar os dados do veículo em trânsito no trajeto contratado. “Esse acesso permite ao cliente acompanhar as ações do motorista, velocidade, localização em tempo real, etc”, explica Bruno dos Santos.

Ação sustentável

Outra vantagem da implantação do sistema de rastreamento é a sustentabilidade: a partir do momento em que se monitora o perfil de dirigibilidade do motorista, é possível “educá-lo” ou “reeducá-lo” nas boas práticas de condução daquele veículo específico. Em outras palavras, diz Bruno, “a partir do momento em que o condutor passa a atuar conforme as recomendações da fábrica, o veículo opera de maneira ideal, gastando menos combustível”. A ação não apenas diminuiria consumo de combustível e as emissões de gases na atmosfera como também propicia menor desgaste mecânico, tanto de peças quanto de pneus.

Para acompanhar as cargas que circulam em trajetos internacionais, as empresas podem estabelecer parcerias em diversos países, ou então criar softwares de gestão que cubram as exigências das localidades em que circulam as cargas rastreadas. No caso da Mix, o software chamado Dynamix, pode ser acessado em vários idiomas e facilita o acompanhamento da carga em outros países sem necessidade de se contratar diferentes fornecedores.

Criatividade

Por mais que a tecnologia venha avançando, no entanto, o roubo de cargas ainda continua sendo um problema recorrente, e os crimes também acompanham o desenvolvimento do mercado. Antigamente, o principal alvo dos ladrões de carga eram caminhões parados em estacionamentos e pontos de descanso. Hoje, graças ao amplo uso dos rastreadores e outras medidas de segurança, novos métodos se disseminam com igual criatividade.

Alexander McGinley, Vice-Presidente de Transportes Terrestres da XL Catlin para a região das Américas, conta que uma das novidades (infelizmente) mais bem-sucedidas do submundo do roubo de cargas vai tão a fundo que envolve a criação uma companhia de transportes fantasma. A CargoNet, empresa de segurança de frete, diz que esse tipo de fraude esteve presente em nada menos do que cerca de 10% de todos os roubos de carga dos Estados Unidos nos últimos anos. Em 2014, o valor médio de carga perdida para um único captador fantasma chegou a ultrapassar US$ 140.000. As estimativas variam, no entanto, há empresas que colocam as perdas totais com roubos de carga como responsáveis por 20% da composição de seus custos dos bens de consumo – o que, consequentemente, recai sobre os fretes cobrados.

De acordo com McGinley, a nova modalidade de furtos ainda é pouco conhecida, e raramente comentada, já que as empresas vítimas do golpe relutam em falar, constrangidas em assumir que não fizeram a devida avaliação das transportadoras e dos motoristas contratados.

A questão é que, nos Estados Unidos, não é muito difícil criar um perfil falso de empresa de transporte rodoviário existente. Outro método utilizado pelos ladrões é reativar uma empresa de caminhões extinta e operar com a licença existente, gozando do bom histórico da companhia. A ação já está tão consagrada e avançada que os ladrões podem identificar cargas com alto valor por meio de sites nos quais os agentes disponibilizam informações sobre encomendas que necessitam de entrega para receber cotações. Apesar de as cargas não serem detalhadas nesse tipo de serviço eletrônico, os criminosos podem utilizar dados, como valor-base para o seguro, ou localidades de origem e destino, tipos de agentes e outras informações que indiquem quão atraentes são as mercadorias.

Embora os ladrões estejam geralmente mais interessados em eletrônicos, são itens facilmente rastreáveis, o que acaba diversificando o alvo dos criminosos para o setor de alimentos e bebidas, por exemplo, que chega a cerca de 30% dos carregamentos fictícios. “São produtos fáceis de vender no mercado negro e difíceis de rastrear”, disse Mc Ginley, o que o vice-presidente de Operações da CargoNet, Keith Lewis, complementa: “Depois que uma peça de frango é consumida, não se tem mais nada, sequer um número de série, um código de barras, de modo que a prova se foi”.

aaaa3-150x150Os mesmos itens são os mais procurados por ladrões de cargas nas rodovias brasileiras. De acordo com Cyro Buonavoglia, presidente da Buonny, a maior gerenciadora de riscos do Brasil, os produtos alimentícios, cigarros, confecções e eletroeletrônicos lideram a lista de crimes na rodovia, pois são comercializados no varejo, devido à fácil distribuição com dificuldades de identificação de origem. Ele classifica como indispensável o gerenciamento de riscos, afirmando, inclusive, que os modelos usados no Brasil já se tornaram referência mundial nessa prática, principalmente em países como México e Argentina.

Como se prevenir

As dicas para evitar esse tipo de golpe vão desde manter sempre a carga em movimento, evitando as paradas ao máximo, estudar os “períodos críticos” de carregamento (o pico dos carregamentos fictícios acontece durante os feriados, finais de semana, e vésperas de qualquer recesso, quando os operadores têm pressa de cumprir o prazo de entrega e satisfazer o cliente e acabam afrouxando a triagem de motoristas e transportadoras, até o estabelecimento de um processo de qualificação das transportadoras, a ser seguido à risca.

Caso o roubo ocorra, McGinley realça a necessidade de que ele seja reportado, para que as autoridades tenham condições de monitorar o episódio e gerar estatísticas confiáveis.
O presidente da Buonny afirma que o Brasil tem hoje um ambiente “fértil” para a proliferação do roubo e furto de cargas, que tende a se intensificar ainda mais com a atual crise econômica: o abastecimento fica mais oneroso e ofertas de produtos roubados com parte dos valores subsidiados pelo crime se tornam atraentes para o comércio paralelo. Além disso, combinação de falta de estrutura da segurança pública com penalidades brandas na legislação contribuem para o aumento dos índices de perdas.

Hoje, conforme explica Cyro, os roubos estão concentrados principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, considerando tanto a área urbana quanto as rodovias. A Rodovia Anhanguera (recordista em incidências), Via Presidente Dutra e Castello Branco estão no topo da lista de ocorrências. A região Sudeste detém um pouco mais de 81% dos roubos no pais, contidos nessa região; São Paulo e Rio de Janeiro aparecem com quase 75%.

Segundo o Journal of Commerce, quando há terceirização de serviços, o sistema de rastreamento pode ficar comprometido: “A sua empresa pode ter rastreamento para os caminhões próprios, porém o que acontece quando você precisa empregar caminhões terceirizados para transportar suas remessas?”, questiona um artigo da publicação. A solução para esse tipo de subcontratação seria a utilização de a tecnologia RFID, que inclui a inserção de chips diretamente nos pallets, ou embutidos dentro das cargas.
Cyro Buonavoglia lembra que gerenciar riscos envolve uma minuciosa análise situacional das operações, bem como a devida aplicação dos procedimentos, treinamento, implantação e manutenção, o que contribui efetivamente para a prevenção e a mitigação das perdas. As vantagens do gerenciamento são “facilmente percebidas quando estabelecemos um comparativo do número de cargas gerenciadas e recuperadas confrontado com o número de perdas”, diz Buonavoglia.

De acordo com ele, as tecnologias são ferramentas fundamentais para a gestão de riscos das operações, porém, devem sempre buscar dispositivos que dificultem e/ou impeçam as ações marginais. “A evolução das ferramentas deve andar à frente do modus operandi das quadrilhas. É importante destacar que as tecnologias para nada servem se os seus recursos não forem bem programados e utilizados pelas centrais de monitoramento com ações de pronta resposta”, destaca.
“Além disso, sempre destaco que gerenciar riscos é uma cultura. É importante que todos os setores envolvidos, Gerenciadoras de Riscos, Embarcadores, Transportadores, Seguradoras, Corretoras de Seguros e Órgãos de segurança pública, trabalhem em sinergia com foco diário no controle e redução de perdas”, finaliza Cyro.

O Journal of Commerce realça ainda que é necessário efetuar a contratação apropriada de seguros, determinando na apólice a quem recairá a responsabilidade pela eventual perda. Geralmente há um teto máximo de cobertura, que pode ser menor do que o valor de sua propriedade, porém é possível trabalhar os valores totais dos bens segurados na negociação: “vai custar um pouco mais, mas vale a pena”, sugere o JOC.

Cleci Leão

Fonte: Guia Marítimo

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