No New York Times: No coração do El Niño, onde tudo começa

12/02/2016

HONOLULU, HI -  FRIDAY, JANUARY 29:  Flight Director Mike Holmes gestures during a briefing for a El Nino Rapid Response mission on January 29, 2016 in Honolulu, Hawaii.  CREDIT: Kent Nishimura for The New York Times                              NYTCREDIT: Kent Nishimura for The New York Times

HONOLULU, HI – FRIDAY, JANUARY 29: Flight Director Mike Holmes gestures during a briefing for a El Nino Rapid Response mission on January 29, 2016 in Honolulu, Hawaii. CREDIT: Kent Nishimura for The New York Times NYTCREDIT: Kent Nishimura for The New York Times


El Niño – New York Times

HONOLULU — Cerca de 1.600 km ao sul do Havaí, o ar 13 mil metros acima do Pacífico equatorial era uma maçaroca cintilante de espessas nuvens de tempestade e uma névoa de cirros gelados, tudo criado pelas águas superaquecidas abaixo.

Pesquisadores da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos EUA sobrevoavam este desolado trecho do oceano tropical, onde os ventos alísios do norte e do sul se encontram. Trata-se de uma área conhecida pelos navegadores por sua calmaria — mas de calma neste ano ela não tem nada.

Esta é a vez em que o coração do El Niño está mais forte em uma geração, um fenômeno que vem injetando umidade e energia na atmosfera e afetando o clima no mundo inteiro.

Recentemente, o jato Gulfstream dos cientistas — mais habituado a caçar furacões no Atlântico — seguiu um longo percurso para oeste, evitando a área com atmosfera mais turbulenta ao sul. A cada dez minutos, os técnicos lançavam um pacote de instrumentos por um estreito tubo no piso do avião. Em seu descenso até a água, auxiliado por paraquedas, esses aparelhos chamados dropsondas transmitiam continuamente dados sobre velocidade e direção do vento, umidade e outros indicadores atmosféricos.

As informações, aplicadas a modelos climáticos, podem melhorar a previsão dos efeitos do El Niño sobre o tempo, ao ajudar os pesquisadores a entenderem melhor o que acontece aqui, no ponto inicial.

“Uma das questões mais importantes é resolver até que ponto nossos atuais modelos climáticos servem para representar a maneira como a atmosfera tropical reage a um El Niño”, disse Randall Dole, do Laboratório de Pesquisas do Sistema Terrestre da NOAA. “É o primeiro elo na cadeia.”

O El Niño costuma se formar em intervalos de dois a sete anos, quando os ventos da superfície, que geralmente sopram de leste para oeste, perdem força. Com isso, a água quente que geralmente se acumula ao longo do equador no oeste do Pacífico fica no leste, e esse volume de água — que no atual El Niño deixou o centro e leste do Pacífico até 2,8o C mais quentes que o normal — funciona como uma máquina térmica, afetando as correntes de jato que sopram em altitudes elevadas.

Isso, por sua vez, pode trazer mais chuvas invernais para o terço sul dos Estados Unidos e condições mais secas para o sul da África, entre muitos efeitos possíveis do El Niño.

Graças ao maior poder de processamento e à melhora dos dados, os cientistas conseguiram aperfeiçoar as previsões sobre quando e com qual intensidade um El Niño irá ocorrer. Em junho de 2015, meteorologistas do mundo inteiro concordaram que um El Niño forte surgiria nos meses seguintes, e assim foi. Mas os cientistas não são capazes de antever com tanta precisão quais serão os efeitos do El Niño sobre o tempo.

O meteorologista Anthony Barnston, da Universidade Columbia, em Nova York, disse que os modelos dinâmicos, que simulam a física do mundo real, ultimamente se mostram mais eficazes em prever o El Niño do que os modelos estatísticos, que se baseiam em comparações com dados históricos.

Com um modelo dinâmico, segundo Barnston, os dados que representam as condições atuais alimentam o modelo, e pronto. Isso pode ser feito dezenas de vezes — ou com tanta frequência quanto o dinheiro permitir —, afinando ligeiramente os dados a cada vez e obtendo médias a partir dos resultados.

Bons dados são cruciais. Os modelos do El Niño vêm sendo ajudados pelo desenvolvimento de satélites e de redes de boias capazes de aferir as temperaturas da superfície marinha e outras características do oceano.

Quando se trata de prever os efeitos climáticos do El Niño, porém, pode ser mais difícil obter dados adequados. É nisso que o projeto de pesquisa pretende auxiliar, ao estudar um processo importante: a convecção profunda tropical.

As nuvens pelas quais o avião passou ao largo naquele dia eram resultado desse processo, em que o ar sobre as águas quentes do El Niño absorve calor e umidade e sobe milhares de metros. Quando o ar alcança alturas elevadas — mais ou menos a altitude do avião —, a umidade se condensa em pequenas gotas, liberando energia na forma de calor e criando ventos que sopram para fora.

Os cientistas sabem que a energia liberada é capaz de gerar uma espécie de turbulência numa corrente de jato, uma onda que, à medida que se desloca, pode afetar o clima nas mais díspares regiões do mundo. E eles sabem também que os ventos gerados por esse processo podem reforçar uma corrente de jato. Por essa razão, a Califórnia e grande parte do Sul dos EUA tendem a ficar mais úmidas em anos de El Niño; é que os ventos da convecção fortalecem tanto a corrente de jato a ponto de permitir que ela chegue à Califórnia e além.

Mas, para estudar a convecção durante um El Niño, os dados precisam ser colhidos na própria atmosfera e também na superfície marinha. Essa é uma tarefa difícil, já que tudo isso acontece num lugar muito remoto.

De certa forma, segundo Dole, os cientistas foram ajudados pelo El Niño, que suprimiu a atividade de furacões no Atlântico no semestre passado. Por isso, o Gulfstream decolou para menos missões, e as horas de voo disponíveis, bem como as dropsondas extras, foram transferidas para o projeto.

“Temos a forte suspeita de que os nossos modelos apresentam graves erros na reprodução de algumas dessas reações”, disse ele. “A única forma de dizermos é indo lá e fazendo observações.”

Fonte: New York Times

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