Startups de agro deslancham no Brasil

13/02/2016

Setor está entre os dez que mais atraem investidores no país, segundo pesquisa; conheça alguns negócios que estão dando certo

Sílvia Azevedo, 46, e Daniel Consalter, 30 anos, produzem equipamentos capazes de analisar a composição química de alimentos, e ganharam como reconhecimento o apoio da Embrapa. Leandro Dupin, 31 anos, preside um mercado online de produtos orgânicos, e faturou R$ 3 milhões em 2015. Fabrizio Serra, 28 anos, fundou um clube de assinaturas de cápsulas de café, e pretende neste ano alcançar 20 mil clientes pelo Brasil. Já os sócios Gabriela Mendes, 29, Luiz Tângari, 40, e Carlos Gonçalves, 25, planejam a primeira expansão de uma plataforma digital de monitoramento de pragas e doenças que criaram e já está sendo usada em quase 1 milhão de hectares no Brasil, com apenas dois anos de existência.

Apesar das diferenças entre cada um destes negócios, as pessoas à frente deles têm muito em comum. Todas elas fazem parte de uma geração de empreendedores que resolveram investir no desenvolvimento de inovações, com potencial para crescer e dominar o mercado agropecuário. As startups, como são conhecidas, se popularizaram principalmente no setor de tecnologia digital, e hoje são a principal porta de entrada de quem deseja ter seu próprio negócio.

No Brasil, mesmo com as incertezas da economia, as startups vivem um bom momento. Uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Startups (ABstartups) mostrou que a quantidade dessas empresas no país cresceu 18% somente entre março e dezembro do ano passado. Juntas, já movimentam aproximadamente R$ 2 bilhões por ano. De acordo a Fundacity, uma plataforma especializada em aplicações de capital, apenas no primeiro semestre de 2015 as startups brasileiras receberam mais de R$ 170 milhões de investimentos. Ainda segundo o estudo, agronegócio, biotecnologia e tecnologias verdes estão entre os dez setores com mais chances de atraírem investidores.

A diversidade no ramo de atuação é característica das startups do agronegócio. Enquanto algumas faze intermediação de negócios entre produtor e consumidor, outras desenvolvem tecnologias adaptadas para serem usadas no campo ou na indústria.

O bom momento da agropecuária brasileira foi um dos fatores responsáveis por atrair cada vez mais estes empreendedores interessados em trabalhar com o setor produtivo. Contudo, não necessariamente estas startups nasceram dentro do ambiente rural. É o caso, por exemplo, da Organomix, um mercado eletrônico especializado em vender produtos orgânicos e alimentos saudáveis.

A ideia para abrir a empresa surgiu quando a esposa do empresário Alexandre Icaza, 37, estava grávida. Preocupados em criar na família o hábito de uma alimentação saudável, o casal notou certa dificuldade em encontrar produtos orgânicos nos supermercados tradicionais. A partir dessa lacuna, Icaza teve a ideia de criar um mercado exclusivo para a venda de orgânicos onde todas as vendas seriam online e o produto entregue na casa do consumidor.

A empresa atua no Rio de Janeiro e São Paulo, disponibilizando mais de 1.500 produtos de 300 fornecedores. Segundo Leandro Dupin, presidente da Organomix, a marca segue uma filosofia de vender apenas produtos orgânicos, naturais e integrais sem nenhum tipo de adição de corantes, adoçantes, sabores artificiais ou gordura trans. “A demanda por uma alimentação saudável tem cada vez mais potencial no mercado. Entretanto, esta cadeia produtiva nunca vai se fortalecer se os produtos não tiverem seu devido espaço”, afirma.

Os mineiros Gabriela Mendes, Luiz Tângari e Carlos Gonçalves também viram oportunidade de negócio no agropecuária mesmo não tendo muita ligação com o setor. Eles fundaram a Strider, uma plataforma voltada ao monitoramento em tempo real de pragas e doenças, que já está sendo testada por universidades e produtores de uva nos Estados Unidos. A tecnologia foi desenvolvida em parceria pelos três sócios Gabriela é designer gráfica, Luiz é engenheiro de software e Carlos, formado em sistemas de informação e viabilizada após aporte de um fundo de investimento.

Com os resultados colhidos em dois anos, eles agora planejam o primeiro passo de expansão do serviço, que deve contar com outros módulos e funções. Segundo Gabriela, uma das etapas mais importantes no desenvolvimento foi a de testar a tecnologia na prática. “A Strider nasceu no campo. Logo que desenvolvemos o software, colocamos um tablet nas mãos de agrônomos para que eles testassem e avaliassem a ferramenta. Isso nos permitiu saber se o produto era viável e realmente ajudaria nas operações de campo,” diz.

Para André Ghignatti, um dos fundadores da Wow Aceleradora, o agronegócio ainda é pouco explorado pelas startups, e por isso oferece tantas oportunidades de crescimento. “Nos últimos três anos os empreendedores perceberam a infinidade de oportunidades existentes no campo. As soluções importadas muitas vezes saíam caras e não estavam adaptadas à nossa realidade. Isso mostrou como valia mais a pena identificarmos nossos problemas e demandas e com isso criarmos iniciativas próprias”, afirma.

Restart

Ás vezes, também é preciso repensar o negócio para viabilizar uma startup. É o caso da Fine Instrument Technology (FIT). Com sede na cidade de São Carlos, interior de São Paulo, a empresa desenvolve o SpaceFit, um equipamento de ressonância magnética capaz de mapear em segundos a composição química e física de produtos agrícolas como grãos e frutas. O produto é voltado principalmente para indústrias e universidades que desenvolvem pesquisas na área agronomia.

Inicialmente, a empresa foi criada com o objetivo de desenvolver equipamentos de ressonância para a medicina, setor com muita concorrência. “Havia uma série de dificuldades, principalmente por ser um setor mais fechado e com empresas bem consolidadas”, afirma Daniel Consalter, um dos atuais sócios. A entrada no mundo do campo aconteceu após contato com o trabalho da Embrapa, hoje parceira da startup.

O desenvolvimento do SpaceFit, que custa aproximadamente R$ 200 mil, não aconteceu sem alguns anos de pesquisa, e requereu uma adaptação dos equipamentos médicos para as necessidades do produtores. “Percebemos a oportunidade dentro do agro e decidimos nos tornar uma startup que recomeçou. Nunca teríamos conseguido sem estudar bastante o mercado ou se tivéssemos tido medo de errar”, completa Consalter.

Negócio de jovens e adultos

Qual o perfil de quem está à frente dessas empresas? Há alguns anos, as startups eram associadas somente aos jovens. Segundo uma recente pesquisa da ABstartups, esse estereótipo mudou, e a média de idade amadureceu. Empresários de 31 a 40 anos representam hoje 36% do total de empreendedores em startups. Ainda assim, a maioria tem até 25 anos, representando uma fatia de 44%.

De acordo com André Ghignatti, as startups do agronegócio são dominadas por jovens com formação técnica. “Muitos desses empreendedores são filhos de fazendeiros, e trazem consigo o conhecimento da área. Os que nasceram fora do campo buscam parcerias com agrônomos e profissionais do setor para se consolidarem”.

Apesar de fazer parte do grupo de empreendedores mais jovens, Fabrizio Serra pode se considerar experiente no mundo dos negócios. Sua terceira startup, a Moccato, oferece aos clientes planos de assinatura mensal de cápsulas de café com preços a partir de R$ 51. Junto com seus sócios, como o mestre de torra Emerson Freitas, desenvolveu um sistema de venda no qual o cliente recebe apenas cápsulas com café recém torrado, de forma a manter as qualidade e o gosto do produto. A empresa, foi fundada no ano passado, e já fatura R$ 1 milhão por ano.

Serra teve muitas empresas distintas entre si, e sabe que abrir uma empresa não é fácil. Aos que desejam começar, mas não sabem como, ele deixa uma sugestão. “Pesquise sobre como funciona o agronegócio, e pense como você pode agregar ao novo, seja com um produto ou serviço. E nunca se esqueça: qualquer um pode abrir uma empresa, basta ter foco, estudar bastante e encontrar pessoas competentes para trabalhar com você”.

Fonte: Globo Rural

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