China ajusta políticas para aprimorar e aumentar sua segurança alimentar

16/02/2016

Em meio às inúmeras discussões sobre a economia da China, sua saúde e evolução e o impacto dessas informações sobre a demanda do país por alimentos, as autoridades locais seguem traçando estratégias para aumentar sua segurança alimentar. E no atual cenário, as teorias sobre quais as medidas que serão adotadas ou aprimoradas também são muitas.

Em um artigo publicado no diário chinês China Daily, seu editor, Wei Longbao, afirma que o assunto deve seguir em pauta e continuar como questão de prioridade máxima no plano quinquenal – de 2016 a 2020 – da nação asiática, atualmente a maior importadora mundial de alimentos. E lembra ainda que o país costuma seguir antigos e sábios conceitos que trazem bons resultados.

“Desde que o falecido líder chinês Deng Xiaoping expôs seu conceito de que a China deveria evitar depender somente das importações para atender sua demanda por comida e de que as importações de grãos não devem ser 10% maiores do que suas necessides, o mesmo tem sido enfatizado por todos os líderes desde então”, disse.

E dados de 2014 mostram que esse princípio vem sendo respeitado. Enquanto as importações de soja vêm crescendo de forma bastante signficativa, as compras de grãos, por outro lado, somavam pouco mais de 19 milhões de toneladas, ou seja, cerca de 3,1% da necessidade total.

Desde 2003, o governo tem oferecido subsídios aos produtores locais e adquirido produtos nacionais com os chamados “preços de proteção” como forma de incentivá-los a aumentar sua produção. Assim, a China conseguiu garantir resultados positivos e e essa política trouxe um aumento da produção agrícola por 11 anos consecutivos.

As mudanças no comércio agrícola mundial, porém, foram inevitáveis. Na medida em que os preços dos produtos vinham recuando ao redor do mundo, as baixas na China também aconteciam, mesmo com as compras feitas pelo governo. Além disso, as grandes indústrias que necessitam destes produtos acompanham os mercados estrangeiros para que possam cumprir sua demanda.

Nesse quadro, Longbao acredita que seja tempo de um ajuste nas políticas locais que possam garantir ainda mais a segurança alimentar chinesa e isso inclui, entre outras medidas, o aumento das importações locais de grãos. Porém, o editor do China Daily defende ainda a necessidade do país de ampliar seu número de fornecedores, deixando de ficar dependente de uma ou duas fontes, além de, dessa forma, permitir uma oscilação mais legítima dos preços de modo que o andamento do mercado internacional não comprometa os preços internamente.

As mudanças nos hábitos da maior população do globo nos últimos anos é muito clara e uma das mais expressivas se deu entre os alimentares. O padrão de consumo é outro com uma forte migração de pessoas para a classe média consumindo, por exemplo, mais proteína animal, ovos, leite e derivados. Isso sem falar do forte processo de urbanização que também pode ser observado no país, na medida em que até mesmo a quantidade de terras agricultáveis precisa crescer, o que faz com que o governo estimule a saída do campo para cidade. Ao lado disso tudo há ainda o fim, depois de muitos anos, da política do filho único.

A proposta do país, neste momento, é consolidar um crescimento baseado no crescimento interno, aumentando sua demanda doméstica, promovendo melhores condições de vida, aumento de renda e, consequentemente, uma demanda maior por alimentos ‘melhores’.

E como explica o consultor de mercado Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, a China faz isso “via aumento da produtividade, o que é ainda melhor”, ou seja, melhores rendimentos aumentam o poder aquisitivo de uma população que, consequentemente, consumirá melhor.

Uma reportagem do jornal Valor Econômico mostrou que, no caso específico da soja, a demanda chinesa está intimamente ligada ao desenvolvimento da indústria local de carnes e que há, portanto, a possibilidade de uma estabilização do setor nos próximos anos. Entretanto, mostra ainda que há algum tempo a China deixou para trás sua meta de autossuficiência em carnes, porém, ainda assim estimula o consumo.

O quadro poderia, portanto, mudar os hábitos de importação do país também, aumentando suas compras de produto de valor agregado, principalmente mais carnes. Afinal, a demanda por proteína animal deverá ser maior do que a produção local.

“A dúvida pela frente é se, realmente, os chineses vão importar mais carnes ou se vão estimular a produção doméstica com o consequente aumento das importações de produtos para ração”, explica Camilo Motter, analista de mercado e economista da Granoeste Corretora de Cereais. “Porém, como eles precisam gerar emprego, acredito que vão seguir estimulando a produção doméstica e importando matérias-primas. Mas é fato que, momentâneamente ou em volumes menores, vão também importar produto acabado”, completa.

Ajustes e políticas de suporte aos produtores

Enquanto o milho importado dos Estados Unidos vale cerca de 1,14 yuan por quilo, o cultivado na China é cotado em 2 yuans, por exemplo. E entre as várias razões para que os preços dos grãos chineses sejam mais caros em relação aos importados, a principal são os gastos maiores com a mão-de-obra, além de uma redução da população economicamente ativa. Embora isso seja positivo do ponto de vista de que os trabalhadores locais estejam recebendo salários melhores, de outro, o impacto é em preços mais altos.

A probabilidade é de que, em alguns anos, a população da China pare de crescer e assim, os produtores locais de alimento devem pensar em estratégias que reduzam seus custos de produção sem passar por uma baixa nos salários de seus funcionários, explica o pesquisador sênior e vice-reitor da Academia Chinesa para o Desenvolvimento Rural da Universidade de Zhejiang, Chen Zhangliang.

O quadro, portanto, exige que o governo ajuste algumas de suas políticas e ofereça, cada vez mais, suporte aos agricultores locais. E para isso, o pesquisador cita três fatores determinantes que devem ser observados.

Primeiro: teoricamente, toda a terra na China pertence ao estado e os produtores podem cultivar as parcelas das quais possuem o direito. “Dada essa condição, o governo deveria permitir que os produtores pudessem alugar seus direitos de uso da terra para outros, facilitando a fusão de pequenas fazendas, criando outras maiores que pudessem ser mais competitivas.

Segundo: o governo deve incentivar os agricultores a utilizarem mais máquinas. “É bem verdade que as autoridades, por anos, têm encorajado os agricultores a fazer isso, mas eles precisam tomar mais medidas que possam trazer resultados mais significativos. Alguns estudiosos afirmam que esse aumento do uso de maquinário poderia reduzir os empregos no campo, porém, em um momento em que a oferta de trabalho está menor, essas preocupações não são mais necessárias”, explica.

Terceiro: Os formuladores das políticas devem apoiar o uso e a experimentação de novas tecnologias que tragam resultados fortes. “Por exemplo, como a segurança de alimentos geneticamente modificados continua, as autoridades precisam organizar discussões mais transparentes entre especialistas, para que a população amplie seus conhecimento sobre os transgênicos e possa decidir se irão consumi-los ou não”, acredita Chen Zhangliang.

Por: Carla Mendese André Bittencourt Lopes
Fonte: Notícias Agrícolas

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